quinta-feira, 13 de março de 2014
Tema: Eu sou um pássaro, preciso fazer um parto para salvar o mundo.
Tema: Eu sou um pássaro, preciso fazer um parto para salvar o mundo.
- Enfim, acabou o universo. Totalmente e efetivamente. Isso me torna a pessoa mais importante para o universo. Mas minha consciência continua. É isso? Porque tudo apagou tão de repente? Eu senti o chão se desmanchar, junto comigo.
- Sim, sua consciência continua.
- Quem diz isso? Tem mais alguém aqui?
- Sim, mas não sou relevante, continue a se lastimar, desgraçado.
- Ótimo, então, sabes porque só eu e você restamos?
- Obviamente.
- E?
- Você sabe muito bem, você quebrou a lógica dentro do discurso que mantém o universo funcionando.
- Discurso?
- É aquela parada do Eu, do Outro, e do Eles. O trio que se elevado ao infinito rege toda a complexidade do
universo em uma forma de equilíbrio. O "verbo" e tal.
- Eu fiz isso?
- Sim.
- Onde?
- Naquele bar, você devia estar bêbado, aliás, você estava.
- Por isso que não me lembro.
- Legal né? O momento mais brilhante de toda a consciência no cosmo feita por um bêbado que nem tem o
ensino médio.
- Se eu tivesse um corpo estaria gesticulando para você agora. Mas bem, e agora, como é que fica? Esse é
meu castigo?
- Neem, pois bem. Vamos ter de refazer o universo.
- Porque?
- É assim que se brinca o jogo.
- Isso me parece Douglas Adans...
- Ele sabia, mas não conhecia a lógica. Eu falei pra ele.
- Quem é você afinal?
- Eu sou o Barney, seu filho da puta. Isso importa agora?
- Não foi minha culpa.
- Isso importa agora?
- Bem, levando em caso a gravidade do caso, talvez não.
- Você tem de refazer a lógica do universo.
- Como?
- Justifique ele.
- Preciso fazer isso?
- Você pode também voltar no tempo como uma ave e ajudar no parto da pessoa que ira matar você antes
disso.
- Como você é engraçado.
- Tanto faz.
- Eu preciso realmente fazer isso? Porque você não faz isso?
- Eu já fiz, e agora estou passando pra você. É seu turno. Tava indo legal até agora, mas você, poderia ter
sido um fim mais divertido. Uma epifania que não viesse de uma pessoa bêbada num bar. E depois será
você que irá assistir o seu universo se expandir através de sua lógica, talvez não demore muito, pelo visto.
- Isso é inveja, não é verdade?
- ...
- Sabia.
- Preciso realmente fazer isso? Tem a outra opção também?
- A do Pássaro. Sabe, eu fui um grande sábio no meu universo, eu fui realmente brilhante. Eu vivia como um
príncipe, na realidade eu era um, mas ao conhecer o sofrimento, foi ai que eu comecei a trilhar meu
caminho, a saber que a realidade não consistia...
- Eu não sou seu psicólogo. Eu quero voltar a tudo o que era antes, eu posso fazer isso?
- Tem o pássaro.
- Isso já perdeu a graça, cara...
- É sério, não sei porque. Mas tem o pássaro.
- Isso tu não conseguiu desvendar né espertinho!
- Desvende então.
- Certo, que coisa idiota. Mas eu escolho o pássaro. Nunca fui muito bom com redação.Mas isso não
causaria um colapso no espaço e tempo e tudo mais.
- Percebo.
- O que?
- Sem colapso, cara, não inventa ok?
- E então, e agora?
- Agora você acorda.
*******
"Vira Bosta invade hospital e ajuda mulher grávida a conseguir atendimento"
Ataíse Nunes, uma paciente do Hospital pôde nos afirmar que na tarde da última quinta feira, Neusa da
Costa Farias tinha entrado no hospital regional da cidade de Canoinhas. Em situação crítica, com a grávida e
prestes a ter um filho, porém não recebe atendimento devido a não estar cadastra no sistema único de
saúdo além do obstetra ter afirmado que estava em horário de almoço. Mesmo com a situação crítica ela
tem o atendimento negado até o momento em que um Chupim(vulgo vira bosta) entra no hospital
atacando o obstetra e defecando em seu sanduíche. O pássaro, segundo testemunhas, continuou a atacar o
obstetra até que o obstetra saísse de sua sala, em desespero, sendo este depois coagido a atender a
parturiente pelas pessoas no local. Está é a primeira vez que se tem registrado o fato de um Chupim salvar
uma mulher em situação de parto.
Encontro com Deus
Encontro com Deus
Estou ficando velho. De certa forma, todo este processo em minha construção só corresponde a uma busca e a elevação de minha consciência. É simples, basta se afastar de seus semelhantes, intervir no desenvolvimento natural de um planeta e ampliar sua onisciência a partir da fundação de si com a forma de viva consciente nele, como um parasita, mas um parasita com maior controle.
Torno-me uma divindade,
outra espécia de realidade me transfigurando de acordo com as
expectativas realizadas destes seres.
Um tanto quanto simples
se com a tecnologia ade guada, toda a minha criação corresponde a
um plano estrutural bem construindo, bastando interferir no
pré-câmbrico para o ordoviciano, como vocês
chamam, controlando assim a respectiva multiplicidade de formas para
uma que fosse mais de acordo com o meu “gosto pessoal”.
De resto, bastava-me
repetir o processo até que me viesse algo do qual eu me
interessasse. De um grupo de seres que eu achei em início
infrutíferos, pequenos ratinhos medrosos e desprezíveis, acabou
por surgir um caminho tão irônico quanto. Até mesmo eu não pude
acreditar que tomariam o controle algo vindo de origem tão
miserável. E continuando assim, por muito tempo.
Vocês não passam de
ratos assustados, enfiados em seus buracos tentando encontrar ou
inventar respostas para tudo aquilo que os perturba, isso é
engraçado. Creio que seja isso, engraçado, é o que em sentiria se
eu tivesse esse tipo de mecanismo em minha estrutura.
Mas é neste sentido
que veem a troca, eu criei esta sua espécie úmida e torpe como
forma, já dita, de me ampliar, minha onisciência consiste no
desenvolvimento de um processo onde faço parte dos sentidos e
sentimentos, sinto e vejo o que cada ser neste ponto no espaço
consegue ver e sentir. Os horrores e deleites, coisas que sua espécia
perturbada criou, desenvolveu em um jogo insano pela busca da
realidade que os decepciona. Imersos em um coquetel químico que
minha espécie não conheceu, é de certa maneira fascinante esta
perspectiva, mas um tanto quanto perturbadora. A concepção de uma
espécie que fica em uma linha que separa o espírito do animal, por
assim dizer, uma espécie consciente que veio do que os da minha
espécie considerariam como sujeira, capaz de variar entre o mais
sublime e o mais pérfido, nós não temos esta dualidade. Somos uma
constante no caos, necessitando de uma outra existência externa para
não definharmos no abismo de uma eterna imutabilidade, da estagnação
da energia essencial. Algo que sua espécie possui ululando em suas
cabeças.
Mas, isso não me
satisfaz, eu queria algo mais, e eu, como uma criança enjoada com
seus brinquedos quer procurar neles um aspecto novo para que eles não
sejam jogados num baú, ou neste caso, simplesmente apagados, como
quem desliga um desses computadores, que sua espécia tanto se esmera
esperando que seja algo produtivo. Neste sentido, eu desenvolvi uma
brincadeira, um jogo como vocês chamam, e a regra é simples. A cada
mil anos, eu resolvi gerar um único ser que não está infectado com
minha onisciência e este ser liberto, deverá me argumentar um
aspecto da humanidade que eu não tenha considerado ainda, algo belo
em minha concepção que me divirta por mais este tempo. As imagens
do fim estão em vossas memórias assim como muitos elementos que eu
configurei para que vocês se comportassem em um determinado padrão,
e tu podes acessá-lo através de seus sonhos ou pela representação
artística ou insana de seus semelhantes, em sua cultura,
manifesta-se pela palavra-chave Apocalipse, de um modo mais geral...
Por exemplo, um dos que
eu achei mais interessante, fora o medo da fatalidade de sua espécia,
que é, como sua espécie tem este aspecto úmido e físico,
metabólico, é uma máquina com um fim causado pelo desgaste e o
medo desta fatalidade, na busca de um sentido a ela fez em seu
desespero uma série de medidas que eu simplesmente considerava
anteriormente um erro, um defeito, como por exemplo, o último par de
dentes de suas arcadas dentárias defeituosas. Mas um deles,me
mostrou através da criação de uma cultura monumental, o desespero
correspondente e a ânsia por uma eternidade, de certo modo ele
pensou na mais simples argumentação que era o desejo de viver. Toda
uma civilização centrada neste desejo, sendo que por fim, como
plano fundamental deste semelhante a ti, através da poesia de sua
criação, aqueles grandes palácios aos mortos do outro lado do Rio
Nilo, que como ele me desafiou, está até este momento presente em
plano físico e em plano inconsciente em sua espécie, representando
este apelo pela eternidade. Ele me desafiou e ainda não venci. Estas
pedras empilhadas, estes palácios ele disse, estariam para mim, como
por toda a eternidade ou por toda a existência deste planeta como um
recado de que um dia esta sua espécie tomaria meu lugar.
Neste sentido, eu
coloquei mais uma regra nesta brincadeira, tens agora duas opções,
a primeira é argumentar de forma que me convença do futuro de sua
espécie. A segunda, é que não precisas fazer isto, mas ao invés,
poderás destruir ou apagar estas pirâmides mas terás uma perda e
também uma recompensa, eu apagarei todo este projeto, assim eu ganho
aquele desafio e posso torná-lo um semelhante a mim, por exemplo,
diferente daquele verme que me desafiou.
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
Sacy - Parte 1 ou talvez 2
Parte 1 ou 2
“Você é sujo, você pertence à sujeira.” Foram as primeiras
palavras sussurradas em seu ouvido. Sentia o cheiro, aliás, aquilo lhe cobria.
Aquilo lhe sufocava e lhe envolvia. Fora assim, depositado lá para depois o
trafego dar tempo de tampar lhe. “Você é sujo, você pertence à sujeira.” Aquilo sussurrava em seu ouvido...
Ele havia sentido o colo de sua mãe, seu cheiro, por um
mísero momento todo o mundo avia se moldado naquele enleio. Ele ouviu a sua
voz, por um segundo, uma única palavra e aquilo ecoou como se fosse um corante
se espalhando num copo d’agua. Ele sentiu toda uma forma de mundo antes de ser
depositado no alumínio da lata de lixo, e com o tempo, ser coberto, soterrado.
Sufocado no resto de pessoas que apenas passam por lá. “Você é sujo, você
pertence à sujeira.” Ele sussurrava, o puxando pelo braço, lhe arrastando
léguas e léguas por algum lugar...
Ele pensou que aquele era seu lugar, fazendo parte entre
tantos, como mais uma chama vermelha na escuridão ao qual complementava. Seu
trabalho era a dor e o medo, era o ódio contido pela inveja, era rir daquele ao
qual torturava.
Eram tantos aqueles ao qual brincar, fervendo assim como
suas palmas, seus olhos e a sua língua áspera. Sufocava com fuligem aqueles a
quem deveria e ao mérito era apenas a
repetição de um eterno trabalho. Ele
dançava em meio ao fogo e ao cheiro de ferro incandescente, era o chumbo
entrando em suas narinas, abrindo seu olhos vermelhos como os grandes poços de
onde se sentia o cheiro de todo aquele horror coagulado. Mas sim aquilo era seu
lar, era parte de sua natureza e vontade.
Sentia-se inebriado, sentia-se envolto de uma razão em si,
onde sua ocupação lhe fazia correr a eternidade ocupado. Seu trabalho o
envolvia, seu trabalho lhe satisfazia, seu trabalho lhe libertava de alguma
coisa. E aquilo lhe suprimia, lhe fortificava, modificava a si e ao seu corpo.
Sentia-se bem, como um em tantos, pendurado no alto daquele
lugar, tornando fosco o fosco e olhando de cima aqueles que chegavam. Era um
ódio intenso, como uma paixão doentia, era um fogo que suprimira uma inveja,
uma inveja anciã que agora estava esquecida, sobrando apenas aquele fogo
alimentado por ela. Era um autômato e isto lhe fazia sentir-se bem, como um
viciado.
Aquilo era tudo. Aquilo fora por quanto tempo? Um ano? Um
século? Uma eternidade? Apenas alguns minutos? Nunca soube. Apenas soube que
escutara um choro incomum, não era como tantos aqueles das torrentes de almas
destroçadas e mutiladas com o qual costumava brincar. Era pequeno, era contido
como um melodia, era doce e lhe dava medo. De onde vinha? Era-lhe familiar.
Aquilo soava e aquilo
lhe fez parar, no meio de tudo aquilo, parou e tentou se aproximar, era uma
lembrança? Não, não tinha elas, mas aquilo lhe doía, lhe angustiava. Pela
primeira vez sentiu algo, algo forte a ponto de alumiar aquele ódio e torna-lo
sombra. Onde estava aquilo, se esforçou. Concentrou-se, aquilo vinha de fora,
se esforçou, sentiu algo mais, era um cheiro... AQUELE CHEIRO, algo antigo como
o ar para um afogado. Ele precisava chegar perto daquilo, ele sentia o cheiro.
Ele seguiu o rastro do cheiro, se enfiou no meio do caos,
sentiu a forma e o tormento de tudo que não existe. Sentiu arrancar-lhe pedaços
de si, enquanto se exprimia entre tanta dor, mas aquele cheiro sempre estava
mais forte! Aquilo lhe era bom, aquilo lhe fazia bem. Aquilo lhe fazia ver uma luz, aquela luz
fraca e turva, aquela luz, alguma coisa tinha além da treva. Ele podia, mesmo com tanta dor lhe
empurrando, aquelas almas afogando, se mutilando, num desespero. Mordidas,
unhas entrando em sua alma, mas ele era forte.
Submergiu, respirou.
Estava num quarto, sentia o perfume, escutou o choro. Aquela
era quem? Aquela estava caída no chão, um outro ser lhe espancava, gritava coisas. Aquilo tinha o cheiro inflamado de álcool, o
mesmo álcool que diluía tantos em seu trabalho. Onde estava? Se viu diante
daquele ser que batia nela. Olhou para ele, tinha de fazer algo, sentiu. Cada
soco ou chute nela lhe doía em dobro. Sofria por ela.
Estava confuso, gritou. Gritou a única palavra que conhecia,
de sua boca em brasas, de seus olhos vermelhos e de seu corpo carbonizado.
Gritou “Tchau! Tchau! Tchau! Tchau!”. Lembrou-se dela, da voz daquele choro lhe
sussurrar isso, antes de nunca mais a ver, por toda uma eternidade. “Tchau!
Tchau! Tchau” Bastou isso para que aquele homem bêbado olha-se direto para ele,
horrorizado, sair correndo. Olhou para sua mãe, estava ela coberta de um
vermelho comum a ele, um vermelho quente ainda. Mas era tarde demais.
E lá estava ele,
olhando para ela, chorava. Ele chegou tarde e a tinha perdido. Tanta
dor, sentindo-se culpado. Olhou em volta
e se viu em outro mundo. Um mundo familiar. Escutou um choro, investigou um pouco
e viu um moleque a chorar, lhe era tão familiar. Aquilo deveria ser o irmão
dele, pensou.
domingo, 8 de dezembro de 2013
Prólogo
Prólogo
Nos contornos cinzas cinze indícios de vida, no alto daquelas torres de concreto. E no entorno, a tinta finda azul, despercebida no asfalto daquele escuro mundo infesto. Essa figura está dentro de uma janela e fulgura em sua torre dentre milhões de torres. Era ela dentro de um apartamento. Visões que sangram vastidões, era ela em tantas janelas, transpondo a esperança e o sonho.Essa dança, na falsa instancia de uma existência adulta. Existência forçada e moldada em uma função aquém, terceira e estranha.
E ela dança e se enleia em exóticos tóxicos dissolvendo-se em sua existência. Na latência de um Nada num gozo tênue e infesto de imagens. Engrenagens de algum sabbath oculto que permanece sobre o inferno empesto sob o asfalto. Do alto, no interno casulo, desconhece o barulho do mundo sob seus abrolhos. Um inferno.
O inferno fulgura como brasas após um incêndio. Forma-se presente, frente aos olho vivos como uma escultura. E ele pulsa, nas luzes do que fora uma cidade, ele pulsa como um parasita sobre a realidade.
E esta, se contorce.
sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
Jabuticaba
Jabuticaba
Está na hora, afinal, é assim que as coisas seguem... Eu me lembro dele me falando, o velho sempre naquele ar meio perdido. “Filho, esta Jabuticabeira eu plantei no dia em que você nasceu. Não é enxertada, pois foi uma das sementes, tipo, quando sua mãe estava grávida de ti, ela tinha muita vontade de tomar suco, ou comer jabuticaba.” “Filho, quando a bolsa rompeu, eu estava muito nervoso e estava na hora, tinha umas no carro, acabei levando o saco delas, parece meio tolo, mas pensei nelas e pensei em sua mãe, não sei. No desespero a gente toma atitudes meio bobas. E lá estava eu, esperando você nascer, comendo jabuticabas de tão nervoso, as jabuticabas que eu tinha guardado para a sua mãe. Como se quando ela saísse dali ela ainda estaria com desejo.“
As vezes, a atitude mais correta é a mais dolorosa. Mas como disse o tio do divã, uma hora temos de nos desvencilhar das imagens maternas e paternas, enfiar as mãos sujas no passado, e tirar o mais humano possível do sagrado que é nossos pais.
“Sabe moleque, você foi a coisa mais importante de minha vida, minha vida foi você. Quando eu vi a enfermeira contigo no colo. Eu senti que dali a diante seria diferente. Foi quando caiu a ficha, que eu percebi que havia crescido. E que a partir de agora eu tinha responsabilidades.” Ainda escuto sua voz.” E enfim a divisão de águas, marcado pelo sorriso constrangido dela, aquilo era pena. A enfermeira olhava pra mim com um olhar de dó.” Minha mãe tinha problemas de saúde , mas meu pai nunca me falou dela. Creio que meus avós, se caso eu os tive, também não deviam ser gente boa. “Foi também, depois de seu enterro, a última vez que eu vi a família dela. Eles nunca nos procuraram, nunca deram uma ajuda. Por isso era que ela, quando começamos a namorar, sempre arranjava um motivo para ficar fora de casa.” Nisso ele deixava escapar. “Gente ruim, sem mais, ainda bem que ela era ovelha negra. Eles olhavam com desprezo para a gente, eu e você, no velório dela.” E ele sempre retornava para aquele ponto da história. “Quando me informaram, aquelas horas todas, o procedimento, apenas eu e minha irmã no hospital; quando cheguei na casa dos meus pais contigo, eu percebi, em todo nervosismo eu estava comprimindo uma semente, minha mão fechada, numa ânsia de surrar não se sabe o quê, comprimia uma semente dês que te vi nas mãos da enfermeira” Engraçado algo durar, pelo que ele falou, naquelas mãos de pedreiro.
Eu me sinto como se estivesse a derrubar a estátua de meu deus. Este era meu maior sacrilégio, mas afinal, eu preciso me libertar. “Naquela época eu não estava maduro como agora.”Dizia ele. “ Para eu escapar, ou suportar eu precisei me livrar do passado, mas eu tinha medo e principalmente um respeito por ti.” E começava. “Aquela semente, ela ainda estava comigo na hora, enquanto você dormia, eu juntei todas as lembranças de sua mãe, fui para o quintal. E colocando tudo em uma caixa de metal, as enterrei. Lá coloquei a semente, para esta crescer junto contigo e ficar como guardiã. Ela nasceu para este fim.” Uma caixa de metal, de formato oval, meu pai era um autodidata sábio.
Sinto que já estou maduro, pena que meu velho não está mais aqui. Só você e eu. E eu sinto que já sabias disto, mas, eu tive de fazer essa escolha. Cresceste, e assim envolveste e guardaste as memórias da minha mãe. Entre suas raízes está o segredo de minha vida. E é a partir deste sacrifício que vou seguir meu caminho. Tornar meu passado humano.
Me desculpa, mas eu preciso, ah uma parte de mim, presa em ti, que tenho de libertar.
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
Chá de Hibiscus
Chá de Hibiscus
Foi como se aquele estranho, ao embaralhar as cartas, tivesse previsto tudo. Antes que o segurassem, conseguiu esconder seus pertences no casaco. Casaco aliás, que mesmo anteriormente amarrado em sua cintura, suavizou as surras e pelo seu aspecto morfético, como se costurado com a pele de ratazanas pré-digeridas, fez com que esta coisa continuasse com o dono. Depois da surra, meio sem saber onde estava, tirava o Louco e na carta invertida o Sol, depois o Enforcado. Louco primeiro pois era a carta ativa e o sol, obviamente inativo, já o enforcado era a questão. Falta agora a conclusão e o consulente.
Seu nome era Jeremias e ele bebia. Misturando aguardente, chá de hibisco para assim pensar melhor. Acreditava que esta era uma ótima forma de emagrecer, mas no momento esta não era a preocupação, com as cartas apoiadas em sua barriga, sua testa frangia centrada em como sair desta encrenca. Mas, acima de tudo, no porque dela.
Estava em um barco fuleiro em alto mar. Tudo o que ele tinha, era justamente o que sempre lhe ajudou a pensar. O Louco, era óbvio, já estava respondido: Ele não sabia porra alguma do que fazer e não conseguia lidar com a gravidade da situação, no mar, era o próprio cenário a invocação do arcano: a instabilidade do mar e o abismo oculto era o seu sorriso de ironia. E o Sol invertido apenas afirmava isso.
Mas e o enforcado? O sacro e o ofício? O sacrifício, a ação mais pura do homem santo? Ou, uma troca de merda. Ele já sabe o que perdeu, mas não é ai que o enforcado entrou. De jeito nenhum. Mas a situação já estava pelo pescoço, nem uma ave no céu, nem uma nuvem, era o azul mortal. Sentir-se-ia mais feliz se fosse um leproso, ou quem sabe um pouco de sífilis? Essas questões, pensou, não importavam no momento, era melhor voltar à realidade.
Resolveu tirar a vez do consulente, apresentou-se o Diabo, bem aquilo fazia sentido, isso deixava as coisas mais claras. É mesmo, agora ele se lembra, andara correndo nu atacando as pessoas às mordidas. Só que não, não era licantropia, pois se não haveria um sentido e não loucura. Mas não, ele não se transformava, era apenas um impulso, de sua cabeça quando esta descia pra baixo ou virava de ponta cabeça? O pentagrama estava invertido? O impulso animalesco foi a prisão da loucura? O irracional...
Mas questionar a natureza do surto não ajudava em nada, em suma: Fora exilado no limiar dos mundos, na representatibilidade da loucura, por estar dominado pelos instintos e terá de sacrificar-se de alguma coisa, em sua plenitude moral, na superação de si. Pois bem, conclusão? Ha! Sim, que bom, a Morte, alguma coisa vai mudar. A libertadora suprema, a grande abertura para o desconhecido. Mas para isso tem de abrir mão de alguma coisa. No meio do nada?
Tinha apenas o chá de hibisco batizado, o tarot, seus tormentos, o barco e o casaco. Achou melhor terminar a garrafa, encher a cara, pensar melhor. Apagar de uma vez, que se dane. Não sentiu a salvação bater em seu barco, uma embarcação maior, com remo desta vez. Mas naquele estado era, enfim, dado como um homem morto, talvez empesteado, não subiriam o “cadáver” que dormia no sono dos tolos. E a morte estava ali, decepcionada, por sorte não havia ninguém embaixo que a visse descer.
Exercício de frases:Foi como se aquele estranho, ao embaralhar as cartas, tivesse previsto tudo. e por sorte não havia ninguém embaixo que a visse descer.
domingo, 1 de dezembro de 2013
Noite
link da imagem
Quando eu era moleque, quem sabe o que poderia ter acontecido comigo. Devo admitir, eu odiava a escola, me era um inferno e eu via naquela rotina um desperdício de vida. Quando se é pequeno o mundo parece mais imensurável do que nos é quando adulto e aquilo brilhava diante mim numa mistura de ilusão e desejo.
Sim, e minha avó morava em um apartamento em São Paulo, com a sala dando para uma varanda de azulejos brancos, onde se podia ver luzir a cidade como um céu estrelado. Estrelas que se moviam num trafego interminável e subiam pelos prédios, piscando de acordo com a rotina de cada um.
E eu tendo de fazer lição de casa, ficar preenchendo aqueles cadernos de caligrafia que o destino me comprovou a inutilidade. Mas tudo bem, eu tinha um plano de fuga, bastou pedir para a minha vó uma quantidade interminável de balões da feira, além é claro de caldo de cana. Em uma mesa de pvc amarela, eu amarrei estes balões com o barbante que tinha encontrado na cozinha e saqueei a geladeira com todo um acervo de besteiras da turma da Mônica.
Levava um caderno, lápis e minha mascara e capa do Batman. Levava um casaco e dois sapatos de lã porque eram confortáveis. Ainda posso sentir a textura daquela lã, é engraçado. Por fim eu estava certo de que haveria tudo para eu poder partir.
Imagina-me em uma daquelas vidas errantes que eu ouvia meu avô falar, na possibilidade de perder-me naquele mundo das revistas da National Geographic, pois eu era um moleque e tinha um futuro cinzelado que brilhava como as janelas do meu prédio. Era um azul fosfóreo e marinho. E entre o gelo do sul e as cordas do barco, colecionaria amores em minhas cicatrizes e morreria ébrio no frio de uma navalha. Quem sabe teria dois amores feito os pescadores naquelas músicas que meu pai escuta e voltaria para casa cheio de cracas e histórias a contar com as cabeças encolhidas de companheiros de viajem, como meu avô contava, índios que colecionavam cabeça de inimigos e seria obrigado a comer meus companheiros de viajem como prisioneiro num ritual sinistro. Dardos e flechas venenosas sob o veneno de sapos multicoloridos, enquanto tentaria sobreviver em um lugar denso envolto de cobras gigantes e animais desconhecidos. Sempre ouvi sobre animais pré históricos que eram descobertos em poças e cavernas destes lugares, ou congelados como os mamutes, onde com seus marfins pessoas faziam trenós.
Pois bem, andaria pelos polos e conheceria reinos de gelo, caçaria focas em cima de trenós e teria uma matilha de cães. Possivelmente veria polvos gigantes e cachalotes e veria a aurora boreal, com a cara cheia de fuligem, pescaria caranguejos no ártico ou saquearia outros navios e faria fortuna. Tornar-me-ia um pirata, saqueando os ingleses e resgatando princesas como meu avô falara que fizeram meus ancestrais, trabalhando para o rei da Espanha ganharia título de nobreza e teria um castelo.
Possivelmente perderia uma perna ou um olho. E seria legal ter um olho de vidro, andando se apoiando sob um bacamarte e com aquelas roupas de capitão. Mas, neste momento escutei as batidas na porta. Escutei o barulho de meu pai e minha avó conversando e depois o tom de voz de meu pai. Eles me veriam naquela bagunça, com uma sacola cheia de comida, deitado fantasiado de Batman, no centro de uma mesa, na varanda com um monte de balões esperando o vento me levar embora. Resolvi então, sentar na frente da televisão e fingir que nada tinha acontecido. Se eu fecha-se a cortina meus pais não veriam, pensei. E fora assim, me levaram pra casa e pouco me lembro do percurso. Tirando uma decepção, me disseram que tinha um elefante em casa, mas era apenas um de pelúcia, ainda tenho ele, está no meu armário.
Esta noite teve uma das maiores tempestades, pelo menos, era isso que eu pensei. Sentia o vento uivar dentre as frestas da janela e o barulho denso da chuva. Ignorava o que estava acontecendo com a minha “jangada” na varanda. Mas sentia que o mundo todo despencava lá fora e eu ali dentro, em meio a minhas cobertas. Pensando em tudo o que poderia ser, na vastidão das possibilidades que o mundo me traria. Naquela noite eu dormi bem.
No outro dia estava de castigo.
Quando eu era moleque, quem sabe o que poderia ter acontecido comigo. Devo admitir, eu odiava a escola, me era um inferno e eu via naquela rotina um desperdício de vida. Quando se é pequeno o mundo parece mais imensurável do que nos é quando adulto e aquilo brilhava diante mim numa mistura de ilusão e desejo.
Sim, e minha avó morava em um apartamento em São Paulo, com a sala dando para uma varanda de azulejos brancos, onde se podia ver luzir a cidade como um céu estrelado. Estrelas que se moviam num trafego interminável e subiam pelos prédios, piscando de acordo com a rotina de cada um.
E eu tendo de fazer lição de casa, ficar preenchendo aqueles cadernos de caligrafia que o destino me comprovou a inutilidade. Mas tudo bem, eu tinha um plano de fuga, bastou pedir para a minha vó uma quantidade interminável de balões da feira, além é claro de caldo de cana. Em uma mesa de pvc amarela, eu amarrei estes balões com o barbante que tinha encontrado na cozinha e saqueei a geladeira com todo um acervo de besteiras da turma da Mônica.
Levava um caderno, lápis e minha mascara e capa do Batman. Levava um casaco e dois sapatos de lã porque eram confortáveis. Ainda posso sentir a textura daquela lã, é engraçado. Por fim eu estava certo de que haveria tudo para eu poder partir.
Imagina-me em uma daquelas vidas errantes que eu ouvia meu avô falar, na possibilidade de perder-me naquele mundo das revistas da National Geographic, pois eu era um moleque e tinha um futuro cinzelado que brilhava como as janelas do meu prédio. Era um azul fosfóreo e marinho. E entre o gelo do sul e as cordas do barco, colecionaria amores em minhas cicatrizes e morreria ébrio no frio de uma navalha. Quem sabe teria dois amores feito os pescadores naquelas músicas que meu pai escuta e voltaria para casa cheio de cracas e histórias a contar com as cabeças encolhidas de companheiros de viajem, como meu avô contava, índios que colecionavam cabeça de inimigos e seria obrigado a comer meus companheiros de viajem como prisioneiro num ritual sinistro. Dardos e flechas venenosas sob o veneno de sapos multicoloridos, enquanto tentaria sobreviver em um lugar denso envolto de cobras gigantes e animais desconhecidos. Sempre ouvi sobre animais pré históricos que eram descobertos em poças e cavernas destes lugares, ou congelados como os mamutes, onde com seus marfins pessoas faziam trenós.
Pois bem, andaria pelos polos e conheceria reinos de gelo, caçaria focas em cima de trenós e teria uma matilha de cães. Possivelmente veria polvos gigantes e cachalotes e veria a aurora boreal, com a cara cheia de fuligem, pescaria caranguejos no ártico ou saquearia outros navios e faria fortuna. Tornar-me-ia um pirata, saqueando os ingleses e resgatando princesas como meu avô falara que fizeram meus ancestrais, trabalhando para o rei da Espanha ganharia título de nobreza e teria um castelo.
Possivelmente perderia uma perna ou um olho. E seria legal ter um olho de vidro, andando se apoiando sob um bacamarte e com aquelas roupas de capitão. Mas, neste momento escutei as batidas na porta. Escutei o barulho de meu pai e minha avó conversando e depois o tom de voz de meu pai. Eles me veriam naquela bagunça, com uma sacola cheia de comida, deitado fantasiado de Batman, no centro de uma mesa, na varanda com um monte de balões esperando o vento me levar embora. Resolvi então, sentar na frente da televisão e fingir que nada tinha acontecido. Se eu fecha-se a cortina meus pais não veriam, pensei. E fora assim, me levaram pra casa e pouco me lembro do percurso. Tirando uma decepção, me disseram que tinha um elefante em casa, mas era apenas um de pelúcia, ainda tenho ele, está no meu armário.
Esta noite teve uma das maiores tempestades, pelo menos, era isso que eu pensei. Sentia o vento uivar dentre as frestas da janela e o barulho denso da chuva. Ignorava o que estava acontecendo com a minha “jangada” na varanda. Mas sentia que o mundo todo despencava lá fora e eu ali dentro, em meio a minhas cobertas. Pensando em tudo o que poderia ser, na vastidão das possibilidades que o mundo me traria. Naquela noite eu dormi bem.
No outro dia estava de castigo.
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